O contexto da HPP

A hemorragia pós-parto (HPP) segue como principal causa evitável de mortalidade materna no mundo, com peso ainda maior em países de média e baixa renda. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, é responsável por parcela expressiva dos óbitos maternos diretos — em especial em casos com diagnóstico tardio de coagulopatia.

A FIGO (International Federation of Gynecology and Obstetrics) publicou, em 2022, atualização das suas recomendações de boa prática para o manejo da HPP, com peso significativo dedicado à avaliação funcional da coagulação.

O que mudou em 2022

A atualização reforça três frentes operacionais:

  1. Identificação precoce da HPP por critérios objetivos (volume estimado e sinais de instabilidade), evitando o subdiagnóstico clínico que atrasa decisões.
  2. Bundle terapêutico padronizado — uterotônicos, ácido tranexâmico, reposição volêmica, hemoderivados sob demanda — com gatilhos numéricos claros e sequência definida.
  3. Avaliação funcional da hemostasia — preferencialmente por testes viscoelásticos beira-leito (TEG ou ROTEM) — para guiar a reposição de fibrinogênio e demais componentes.

Por que testes viscoelásticos?

Em HPP, a hipofibrinogenemia instala-se rapidamente — antes de alterações detectáveis pelo coagulograma convencional — e é fator preditivo independente de progressão para HPP grave. Estudos referenciados pela FIGO mostram:

  • Fibrinogênio plasmático abaixo de 2 g/L durante a HPP correlaciona com necessidade de transfusão maciça e desfecho desfavorável.
  • O MA do cartucho CFF (TEG 6s) ou MCF do FIBTEM (ROTEM) identifica hipofibrinogenemia em menos de 15 minutos, contra os 45 a 90 minutos do laboratório central.
  • Reposição precoce com fibrinogênio concentrado ou crioprecipitado, guiada por gatilho viscoelástico, reduz progressão para coagulopatia estabelecida.

O ácido tranexâmico

A FIGO consolida a recomendação do estudo WOMAN trial (Lancet, 2017): o ácido tranexâmico deve ser administrado assim que possível após o diagnóstico de HPP, e preferencialmente nas primeiras 3 horas — janela em que o benefício é maximizado. A janela tardia traz benefício reduzido ou nulo.

A combinação TEG/ROTEM + ácido tranexâmico precoce permite, ainda, discriminar hiperfibrinólise (LY30 elevado) e objetivar a indicação, em vez de administrar empiricamente.

Implicações para serviços brasileiros

Os centros obstétricos brasileiros têm muito a ganhar com a adoção de:

  • Protocolo institucional escrito de HPP com gatilhos viscoelásticos.
  • Treinamento de equipes multidisciplinares — obstetra, anestesista, enfermagem, hemoterapeuta — em interpretação de traçados.
  • Disponibilidade de fibrinogênio concentrado em estoque acessível 24/7.
  • Auditoria periódica dos casos de HPP grave, com revisão dos intervalos diagnóstico-tratamento.

Sobre a FIGO

A International Federation of Gynecology and Obstetrics reúne mais de 130 sociedades nacionais de ginecologia e obstetrícia. Suas recomendações de boa prática são referência internacional em saúde da mulher.

Referência

Escobar MF, Nassar AH, Theron G, et al. FIGO recommendations on the management of postpartum hemorrhage 2022. International Journal of Gynecology & Obstetrics. 2022;157(S1):3-50. DOI: 10.1002/ijgo.14116.

WOMAN Trial Collaborators. Effect of early tranexamic acid administration on mortality, hysterectomy, and other morbidities in women with post-partum haemorrhage (WOMAN): an international, randomised, double-blind, placebo- controlled trial. The Lancet. 2017;389(10084):2105-2116. DOI: 10.1016/S0140-6736(17)30638-4.