Contexto

A hipofibrinogenemia adquirida é uma causa frequente de sangramento perioperatório em cirurgia cardíaca, em particular após circulação extracorpórea prolongada. Tradicionalmente, o crioprecipitado foi a opção de primeira linha — porém, com limitações conhecidas: necessidade de descongelamento, risco infeccioso residual, variabilidade de concentração entre lotes e logística complexa em unidades de menor porte.

O fibrinogênio concentrado (concentrado de fibrinogênio purificado e liofilizado) surge como alternativa padronizada, com tempo de preparo reduzido e dose previsível.

Desenho do estudo

O FIBRES foi um ensaio clínico randomizado multicêntrico, duplo-cego, conduzido em 11 hospitais canadenses, publicado no JAMA em 2019. Foram incluídos 827 pacientes adultos submetidos a cirurgia cardíaca com sangramento clinicamente significativo e hipofibrinogenemia documentada.

  • Grupo intervenção: 4 g de fibrinogênio concentrado.
  • Grupo controle: 10 unidades de crioprecipitado.

O desfecho primário foi a transfusão alogênica (concentrado de hemácias, plasma e plaquetas) nas 24 horas seguintes.

Resultados

O estudo demonstrou não-inferioridade do fibrinogênio concentrado em relação ao crioprecipitado para o desfecho primário. As estratégias se mostraram equivalentes em:

  • Consumo médio de hemoderivados.
  • Reoperação por sangramento.
  • Eventos tromboembólicos em 28 dias.
  • Mortalidade hospitalar.

Por que o estudo importa

O FIBRES consolidou que, em hospitais com acesso a fibrinogênio concentrado, a estratégia oferece vantagens logísticas significativas: dose padronizada, preparo em minutos, sem necessidade de descongelamento — elementos críticos em sangramento agudo, quando minutos importam.

Combinado a testes viscoelásticos beira-leito que permitem identificar hipofibrinogenemia em menos de 15 minutos (cartucho CFF do TEG 6s ou FIBTEM em ROTEM), o fibrinogênio concentrado vira braço operacional de uma decisão informada — não chute baseado em coagulograma de 60 minutos.

Aplicação no Brasil

No Brasil, o fibrinogênio concentrado foi aprovado pela ANVISA e está disponível em centros de referência. A combinação TEG 6s + fibrinogênio concentrado é uma das estratégias com melhor relação custo-benefício no manejo de sangramento perioperatório em cirurgia cardíaca de grande porte — especialmente em revascularização e cirurgias valvares combinadas com intervenção em aorta.

Referência

Callum J, Farkouh ME, Scales DC, et al. Effect of Fibrinogen Concentrate vs Cryoprecipitate on Blood Component Transfusion After Cardiac Surgery: The FIBRES Randomized Clinical Trial. JAMA. 2019;322(20):1966-1976. DOI: 10.1001/jama.2019.17312.